O homem estranho que atravessava a praça da cidadezinha era todo verde. Seria comum, não fosse verde; por ser verde, era definitivamente estranho. O estranho homem verde surgira ali sem aviso, sem qualquer anúncio prévio da sua chegada. O homem verde era um acontecimento para os desocupados e para as mães que passeavam com os filhos pela praça, e em especial para as crianças, que o observavam curiosas enquanto ele passava silencioso e verde pelos locais de suas brincadeiras, e todas se esqueciam dos jogos que jogavam e punham-se a olha-lo admiradas, as bocas abertas e as mesmas expressões de pasmo esculpidas em suas faces pueris. Eu poderia dizer que o homem verde era verde apenas na superfície, devido a uma rara configuração nos pigmentos da sua epiderme, e apresentaria tal informação com ares de entendido em dermatologia e me sentiria muito sábio e enciclopédico. Mas não posso fazer isso, por mais que me dê prazer, porque a verdade é que desconheço inteiramente a razão de sua completa verdura. Além disso, o homem verde não era verde apenas na pele: seus cabelos eram verdes, sua barba, o branco de seus olhos, seus dentes, tudo verde. Seu sangue e seu esqueleto eram verdes, e desconfio que até seus pensamentos e sentimentos assim o fossem. E, por cúmulo, vestia-se todo de verde, da cabeça aos pés. Era um belo terno verde o que trajava, de corte moderno e algo justo, cujo paletó repousava sobre uma camisa verde, num tom levemente mais claro. Nos punhos verdes da camisa, abotoaduras de turmalina, conforme supus, ou então de esmeralda. Em seu peito balançava a mais elegante gravata que jamais vi, de rebrilhante seda verde. O tecido verde das calças ondulava enquanto ele caminhava, e assim era possível notar que suas meias eram verdes. Os sapatos de bico fino, obviamente, eram também verdes, assim como os cadarços. Olhei-o embasbacado quando passou por mim (eu estava sentado num dos bancos da praça). O homem endereçou-me um sorriso esverdeado e seguiu adiante. Levantei-me e corri atrás dele, interceptando-o ao tocar seu ombro verde. Ele voltou para mim o rosto verde e, fitando-me amistosamente com seus olhos muito verdes, disse: “Sim?” À indagação verde do homem, fiquei sem ter o que responder. Pensei em alguma coisa interessante ou inteligente para dizer, mas nada me vinha à mente. E o homem verde me olhava, parado à minha frente, e eu parado diante dele e todos os olhos da praça sobre nós, aguardando pela conclusão. Então eu disse: “Você não é aqui da cidade, não é mesmo?” Após uma poderosa gargalhada verde, o homem retrucou: “Por que está tão espantado? É pelo fato de eu ser verde?” Encarei-o seriamente, dizendo: “Você não é apenas verde. Parece mais um abacate humano.” Ele riu novamente, e reparei que havia um leve toque de histeria em suas maneiras. Lembrava um personagem de desenho animado. “É uma longa história”, disse o homem verde quando terminou de rir. Aproximou-se e, estendendo o braço por trás do meu pescoço e puxando-me para junto de si, sugeriu: “Que tal se tomássemos alguma coisa ali? Conto-lhe tudo.” E indicou uma lanchonete. Para lá nos dirigimos, e o atendente não pôde conter a estranheza quando o homem verde fez seu pedido: “Um suco de kiwi pra mim, e pro meu amigo aqui sirva o que ele quiser.” Pedi uma coca-cola e, quando estávamos com os refrescos em mãos e o atendente se afastara, questionei o homem: “Então, vai me dizer por que razão você é todinho verde?” Ele mediu pensativamente o copo de suco sobre o balcão. Em seguida falou: “Eu disse que era uma longa história, mas menti. A verdade é que não sei nem nunca quis saber a causa de ser assim. Geralmente passo despercebido nos grandes centros, mas na periferia as pessoas costumam reparar mais. Em cidades pequenas, então, é um verdadeiro evento. E confesso que adoro isso. Sou verde! Não me discriminam. Não sou preto nem amarelo nem vermelho: sou único. Verde, só eu. Tratam-me com reverência, até, quando revelo minha cativante personalidade. É por isso que estou aqui. Eu vivia no centro de uma cidade enorme e ninguém me notava. Parecia que eu era invisível. Trabalhava na bilheteria de um cinema. Recebia o dinheiro e entregava os bilhetes e o troco para as pessoas da fila e fazia-o de modos que me notassem, porém jamais fui tratado com deferência por ninguém, apesar de ser inteirinho verde. Nem meus amigos mais chegados pareciam perceber isso. Diziam que eu era muito divertido, ou questionavam a razão de eu parecer estar tão irritado, ou então me avisavam que havia caspa na gola da minha camisa, mas nunca, nunca mesmo, disseram na minha cara que eu estava mais verde que de costume. Pior de tudo: desconfio que comentavam pelas minhas costas, e não existe traição maior, segundo penso. Sequer meus pais! Em toda minha infância e adolescência, jamais sentaram pra conversar comigo e revelar, de maneira psicologicamente estudada e dramaticamente contida, que eu era verde. Na escola a mesma coisa. Todos me tratavam normalmente, como se eu fosse comum. Comum, eu! Enfim, um dia me cansei de tudo e fui dar umas voltas pelo subúrbio, pra espairecer. E foi quando fui notado pela primeira vez na vida. As pessoas me cercaram, e algumas gritavam: ‘Olhem! Ele é verde! Verde, verde, verde!’ Foi o meu triunfo. Dali em diante mudei-me para a periferia, e sempre que posso viajo para cidades como esta, bem pequenas, onde todos me observam com admiração e sou considerado um fenômeno.” Quando o homem verde terminou de falar, eu já havia acabado minha coca-cola. Ele apressou-se em pagá-la e em seguida me despedi, apertando sua mão verde e agradecendo sua generosidade incolor. Ficou-me dele a impressão de ser um sujeito legal, embora um bocado fútil e, de certa forma, esnobe e presunçoso. Mas quem sou eu para julgá-lo?